30 maio 2018

A Perda Gestacional na visão do Pai

CASA & FAMÍLIA > Gravidez

 

Oi, Pessoal! Tudo bem? Pra quem é novo por aqui, eu sou o Narciso, esposo da Fernanda que comanda o Blog La Vida. Tenho uma coluna aqui que se chama Mandando a Real, onde de vez em quando trago o meu ponto de vista sobre os diversos temas do blog.

Bem, há 2 meses nós levamos uma rasteira da vida. Perdemos o nosso filho quando a Fê tinha 18 semanas de gravidez. Quem viu os vídeos e posts anteriores já sabe como e porque tudo aconteceu; então não se preocupem porque não estou aqui pra repetir tudo. O motivo do meu post é outro.

A verdade é que nesses 2 meses temos aprendido muito, especialmente sobre o quanto é grande o desconhecimento das pessoas sobre o efeito pós-aborto, o quanto se julga a tristeza de uma perda gestacional, o quanto se dá conselhos que não ajudam (“ahhh mas vocês são novos”, “mas logo vem outro”, “ao menos não deu tempo de se apegar”, etc) e sobre o quanto se esquece que aonde existe uma mãe sofrendo também existe um PAI.

Longe de mim desmerecer o sofrimento das mulheres, das mães, da minha esposa; porque além da dor emocional, elas ainda convivem com todos as sensações físicas. Num dia estão sentindo os chutes na barriga e no outro a ausência de um bebê que já não habita seu ventre. E essa mãe precisa ser consolada, respeitada e amparada. O problema é que poucos se lembram do sofrimento do pai.

Esse post está longe de ser uma competição entre homens e mulheres, entre quem sofre mais. Também não é pra enaltecer o tal “mi mi mi”. É só uma singela tentativa de chamar a atenção das pessoas para um problema que é vivido pelo casal.

Desde que planejamos ter um filho eu me envolvi em cada detalhe. Quando o positivo foi confirmado eu comemorei, fiz planos, idealizei. Compareci a cada consulta e ultrassom, ficava impressionado com o milagre da vida. Eu fazia tudo que me diziam ser bom para o bebê: colocava música clássica no carro pra ele ouvir, realizava os desejos da minha esposa, fazia o que era preciso e o que não era tão essencial assim mas que me deixava feliz, especialmente por ser pai de primeira viagem.

Já imaginava como seria o nascimento, a família chegando ao Chile para conhece-lo, o primeiro natal no Brasil com um bebê, a primeira viagem pra praia, nós dois jogando futebol.

Eu me tornei pai e a ficha caiu com uma força brutal quando na maternidade eu conheci e me despedi do meu filho ao mesmo tempo. Poucas vezes chorei como naquele dia. Foi uma perda significativa e única, até porque ver meu filho foi como me ver no espelho. Ele tinha mais de mim do que eu mesmo.

Fiquei sem chão mas tive que encontrar uma maneira de ficar em pé porque eu precisava ajudar a Fê na sua recuperação, no cuidado da casa e no repouso. Muitas vezes tentei mostrar que eu estava bem pra ela não se preocupar mas ela percebia, porém entrava no meu jogo ao fingir que acreditava.

Fui deixando de lado as coisas que mais gosto de fazer: jogar futebol, ir pra academia, comer saudável, passear. As coisas foram perdendo a graça. E isso sem falar do medo: Medo de engravidar de novo e perder, medo de tentar, medo de não tentar, medo de sentir medo sempre. Medo desse vazio.

É por isso que eu resolvi fazer esse post porque não é mesmo fácil perder um filho, inclusive aquele que você não teve a chance de conviver. Por isso console cada casal que passa por isso, dê o tempo que eles precisam e ajude no que for necessário. Mas ajude o casal. Ambos fizeram esse bebê, ambos doaram sua carga genética, seus sentimentos, seus sonhos, seu tempo.

Longe de mim questionar o sofrimento de uma mãe mas já ficarei feliz se as pessoas acreditarem no sofrimento do pai, que vai viver seu luto à sua maneira: talvez calado, talvez fingindo estar tudo bem mas vai viver o sofrimento porque é impossível viver algo tão grande sem sentir nada.

Um abraço,
Narciso, o pai do Pedro.
Fê La Salye
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Comentários
9 comentários em "A Perda Gestacional na visão do Pai"
  1. Priscila   31/05/18 • 00h03

    Narciso, eu sofri 2 abortos espontâneos e 1 gestação ectopica. Posso te dizer que entendo oq vcs passaram. Assim como vc, meu esposo esteve ao meu lado me apoiando sempre, e te digo, isso é fundamental!! Desejo muita sorte para vcs, e que independentemente do que vcs decidirem, que essa seja a melhor decisão!!

  2. Priscila   31/05/18 • 00h08

    Ahhhh esqueci de falar que o luto paterno é tão forte qto o materno, tenho certeza disso. Ainda mais partindo de caras como vcs (vc e meu marido), que desde o início vivenciaram cada segundo da gestação.
    A dor jamais passará. Alguns dias fica mais forte, outros quase imperceptíveis, mas sempre estará presente.
    Fiquem em paz!!

  3. Mariana Mazza   31/05/18 • 01h34

    Lamento muito pela sua perda! Infelizmente as pessoas não estão muito preparadas para lidar com o aborto e acabam adotando expressões como as que você citou aqui, na tentativa de consolar o casal… Mas só quem passa sabe o tamanho dessa dor! Que Papai do Céu conforte vocês e que dê esperança e coragem de seguir em frente e tentar novamente! Estou na torcida!

  4. Mariana Campana   31/05/18 • 04h41

    Bom dia Narciso, Fe! O tempo de Deus determinado em nossas vidas excede qualquer explicação não é mesmo? Tenho certeza que no tempo certo nova experiência virá.. você será um ótimo pai de novo Narciso, realmente acredito que as pessoas tem o direito de passar pelo luto e se recolher um pouco, e é um tempo importante pra um recomeço…estaremos aguardando uma notícia de vocês com alegria, não temos pressa. Eu como leitora da Fe, aprendí a gostar de vocês como família, e torço pela felicidade de vocês. Viva esse momento, do jeito que ele precisa ser vivido, o público da Fe está aqui pra te ouvir também.

  5. Fabiana   31/05/18 • 04h52

    Que lindas palabras Narciso!
    Realmente o lado do pai as vezes passa despercebido, muito bom você trazer o outro lado da moeda.

  6. Maryelle   31/05/18 • 05h47

    Lindo texto, corajoso e comovente !!! Parabéns pela coragem e pela sensibilidade !!!! Reflexão incrível é que como vc disse, precisamos entender que além da mamãe tem o papais que ambos devem ser consolados, ouvidos e compreendidos dessa dor, desse luto. Adoro vcs 2, que Deus abençoe

  7. Mada   31/05/18 • 06h37

    Acredito em tudo que falou,e imagino o quanto está sendo difícil para você também.Deus continue dando consolo e a certeza que cuidará de vocês

  8. Andreia   31/05/18 • 20h22

    Que Deus conforte seu coração. Quase não falo sobre a perda tanto para mãe quanto para o pai. Porém quando eles se manifestam ai sim, falo algo mas, talvez nunca seja o certo. Quando a pessoa não fala o que sente fica difícil de sabermos qual o grau da perda na sua vida. Por que cada um tem sentimentos diferentes do outro. Uns sentem mais outros menos. Pela sua postagem sinto que foi grande. Espero em tudo aconteça da melhor forma possível na vida de vocês. Abraço e força.

  9. Mariana Oliveira   02/06/18 • 00h36

    “Impossível viver algo tão grande sem sentir nada”. Palavras sábias pq sim, ambos depositaram mto amor na gestação de um filho e ambos sofrem e sofrem de maneiras distintas. Luz pra vcs dois 😘

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