04 out 2018

Não deixamos de ser únicos quando nos tornamos um só – #LaVidaReal

LIFESTYLE > La Vida Real

Desde que comecei o blog, isso lá em 2012, recebo muitos emails de gente contando a vida e pedindo ajuda. Eu acho demais porque de alguma forma mostra que me veem como uma amiga ou alguém que pode dar um conselho. Fato é que nunca levei esse lado do blog para nenhum dos meus canais de comunicação, ficava só nas conversas de emails embora muitos seguidores já sugeriram uma coluna ao estilo “divã da Fe”.

Então resolvi lançar por aqui a coluna La Vida Real. Vai funcionar assim: você manda um email para [email protected] com o assunto #LaVidaReal. Eu vou publicar sua história aqui no blog de forma anônima (pra quê complicar a vida de quem está precisando de ajuda, não é mesmo?!) com a minha opinião ou conselho. Além disso, você vai contar com as diversas opiniões da galera que me segue, aqui nos comentários. Ou seja: você pede ajuda, a gente conversa, nossa galera do bem opina e todo mundo que se sente identificado pode aplicar algum conselho nessa nossa vida mais que real. Bom, né?

Vale lembrar que não sou psicóloga e nem a dona da verdade. Essa coluna nada mais é do que aquela conversa entre amigos, onde muitas vezes a outra pessoa nem diz algo que muda a sua vida pra melhor (ou sim) mas ao menos rende boas risadas e reflexões, o que já é suficiente para mudar ao menos o dia, né? Então vamos para o primeiro La Vida Real aqui do blog.

#LaVidaReal 1 – Coração dividido

“Fe, eu moro no Canadá há 2 anos. Nunca tinha pensado em morar fora mas vim porque conheci um canadense pela internet, nos apaixonamos e depois de 3 meses de conversa começamos a namorar à distância. Durante 1 ano a gente se via em feriados ou férias. A saudade sempre foi um fator muito complicado que nos fez durante 1 ano pensar e conversar muitas vezes sobre o fato de que ía chegar o dia em que um de nós teria que deixar o seu país para ficarmos juntos. O problema é que a conversa sempre tendia para o lado de que eu deveria ser a pessoa a deixar tudo pra trás e se analisarmos bem, o pensamento do meu namorado não era incoerente: Canadá, país de primeiro mundo, ele trabalhava e poderia bancar nós dois até eu conseguir um trabalho, não morava de aluguel e tinha uma boa estabilidade financeira. Eu tinha meu trabalho no Brasil, morava sozinha e de aluguel, não tinha uma vida 100% confortável mas era feliz. No entanto, fui me acostumando com a ideia – até porque os amigos diziam isso também – de que era mais fácil e até justo eu deixar o Brasil do que ele deixar um país desenvolvido e que além de tudo poderia dar uma boa vida aos dois. Fui trabalhando minha mente, pesquisando em blogs e finalmente me mudei para o Canadá. Descobri que o país é mesmo tudo isso que dizem e sinceramente, meu padrão de vida melhorou muito aqui, sem contar que gosto muito dos valores que existem na cultura canadense. Os nossos problemas de saudade e distância acabaram mas como isso aqui é vida real, vieram outros. O tempo foi passando e eu não conseguia trabalho na minha área. A cultura de trabalho da minha profissão no Canadá é bem diferente da que existe no Brasil e com esse aspecto eu não consegui me adaptar. Comecei a procurar formas de abrir meu empreendimento mas tive que mudar completamente de área. Foi um grande desafio e aprendi muito mas nunca mais consegui me sentir realizada profissionalmente como no Brasil. Por trabalhar de forma independente, passo o dia sozinha. Só converso quando minhas clientes chegam mas como atendo cada uma de forma individual, nunca mais tive a chance de ter aquele grupo de mulheres falando e rindo ao mesmo tempo. Me sinto muito sozinha e quando chego em casa sinto que meu namorado e eu estamos em frequências diferentes. Não existe sintonia. Veja bem, não disse que não existe amor, só não existe sintonia. Ele chega realizado do trabalho, tem amigos e sai com eles, tem a família toda no país, tem sua casa, sua estabilidade, seu relacionamento, sua cultura, cada aspecto da vida no seu devido lugar. Eu tenho um trabalho que não gosto, um sentimento de ter jogado anos de estudo e carreira no lixo, não tenho amigos apenas conhecidos, como não ganho o equivalente a ele me sinto morando de favor mesmo que ele nunca tenha dito ou demonstrado isso, minha família está longe e só podemos nos ver 1x no ano e tirando o amor que sinto por ele, parece que está tudo fora do lugar há 2 anos. Além disso me sinto culpada porque parece que não sou grata com a vida que tenho e ao mesmo tempo fico na dúvida se ele faria a mesma coisa por mim: abandonar tudo para ficar ao meu lado. Agora estamos num impasse porque ele quer casar e ser pai e eu não sei se consigo ser feliz tendo apenas 50% de mim satisfeita com a vida que tenho. O que faço, Fe?”

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Hummm… vamos por partes. Você começa dizendo que nunca pensou em morar fora. Pela minha experiência de anos morando no exterior, vendo muita gente chegando e indo embora todos os dias, aprendi que é mais provável ter uma boa experiência em outro país se você sempre quis ter essa experiência. É claro que você pode ser feliz lá fora sem nunca ter se imaginado fora do Brasil (aconteceu comigo), mas é mais fácil sim se encaixar em outra cultura quando há uma motivação interna e única, sem a influência de outros. Essa motivação vai sempre direcionar as suas atitudes para que tudo contribua em prol da decisão de morar fora. Quando ela acontece motivada por uma outra pessoa, o inconsciente começa a pensar no que fazer para agradar essa pessoa ou para não ficar sem ela, sem a gente nem perceber. E é aí que mora o perigo.

Se relacionar à distância é bem complicado. Sei porque já passei por isso. E ela é traiçoeira porque ao mesmo tempo que te deixa triste e incompleto por estar longe de quem se ama, ela te motiva a ficar de certa forma incompleto com outras coisas que te fazem bem mas que você pensa que pode ficar sem e numa boa, pelo simples fato de que estará com a pessoa amada. No fundo, pôr um fim ao relacionamento à distância é admitir que você vai sair de um estado incompleto (viver longe de quem se ama) para entrar em outro estado incompleto (viver sem as coisas que mais ama) e pasme: só um dos dois vai ter essa sensação inicialmente, o outro continuará com a vida inteira no lugar, sem o mesmo peso da renúncia que o parceiro enfrentou. Então é normal você achar que só você se sacrificou e que talvez ele não faria a mesma coisa por você. Não tenho como afirmar que ele nunca faria mas o fato é que ele não fez quando foi preciso. Pelo amor de Deus, não estou dizendo que seu namorado é uma má pessoa ou egoísta, o fato é que assim como você fez essa escolha, ele também poderia ter feito e talvez nesse momento ele seria a pessoa a me escrever dizendo suas preocupações, porque elas existiriam em maior ou menor grau. Ambos podem ser felizes numa decisão assim mas só 1 dos dois conseguirá ficar 100% completo inicialmente e nem precisa ser um brasileiro com uma canadense. Isso acontece também com casais brasileiros que decidiram morar no exterior. Basta que um dos dois tenha saído do país com alguma coisa mais favorável que o outro: um vem com proposta de trabalho e o outro não. Um tem algum parente ou amigo nesse país e outro não. Um tem visto e o outro não. Um tem vida social e o outro não. Um passa o dia com os filhos e o outro não. A lista é infinita.

O pensamento dos seus amigos sobre o Canadá ser melhor para morar, é coerente mas é vago: é melhor em que sentido? E pra quem? Infelizmente nunca teremos essa resposta até vivermos essa experiência. Você jamais poderia imaginar que entre tantas coisas boas do Canadá e até conhecidas mundialmente, que ía ter justamente um problema para exercer a sua profissão. Jamais poderia imaginar que não voltaria a ser realizada profissionalmente. Jamais poderia imaginar que ter esse lado bem resolvido é tão importante quanto disfrutar da companhia da pessoa que você ama. E quer saber? Você não é egoísta, você é humana! Todo mundo quer trabalhar com o que ama e ser realizado nas coisas mais simples, seja no Brasil ou no Canadá. Não deixamos de ser únicos (com necessidades únicas) quando nos tornamos um só e é aí que corações apaixonados metem os pés pelas mãos na hora de morar fora. No fundo é importante se perguntar até onde cada um é capaz de abrir mão e continuar sendo feliz e é preciso ser bem racional nesse momento, algo difícil quando envolve amor. Agora, não sei se ajuda mas em 90% dos casos, é a mulher que deixa tudo e acompanha o amado. O contrário é bem menos frequente. Homens são egoístas? Não necessariamente. Só acho que eles conseguem com maior facilidade separar as coisas, analisar com “frieza” e têm mais claro o que os fazem feliz além da pessoa que amam. A mulher em geral já nasce com esse sentido de renúncia, de abrir mão de algo por alguém e com isso nem sempre ela vive uma vida plena como os homens vivem. Não estou falando de machismo ou feminismo, apenas da forma diferente como mulheres e homens lidam com a mesma coisa, entende?

Pelo que entendi, vocês se amam, vivem bem e você gosta de morar no Canadá, então talvez seja a hora de se fazer algumas perguntas:

  • Se por qualquer outro motivo vocês se separassem hoje, você continuaria morando no Canadá? Encontrar essa resposta te ajudará a entender a real motivação de continuar nesse país.

 

  • Se você começasse uma relação com um brasileiro hoje, você estaria morando com ele 1 ano depois? Encontrar essa resposta ajuda a entender se morar juntos seria algo natural ou foi apenas a solução para a distância. Não estou dizendo que é o caso de vocês mas muita gente que me escreve descobre que daria certo morando junto se tivesse esperado o rumo normal das coisas, sem deixar a saudade antecipar fases. Acho que vale pensar no assunto para se autoconhecer.

 

  • Se você voltasse para o Brasil hoje, ele te acompanharia? E se isso acontecesse, ele teria como manter um nível de vida ao menos parecido ao que ele tem hoje? Porque não dá pra se iludir, é preciso um mínimo de conforto. Dá para tirar muitas coisas da vida que talvez não proporcionem o mesmo conforto mas quando você começa uma vida no exterior com um padrão muito inferior ao que você tinha no seu país, é bem mais difícil e afeta até seus relacionamentos. No fundo é pensar que deixar o país de origem já é uma baita mudança por si só. Mudar ainda mais coisas na fase inicial, é pedir pra se frustrar. O ser humano é completamente adaptável mas não é adaptável a muitas coisas ao mesmo tempo. É sempre um passo de cada vez. É difícil mesmo conciliar outro país, outra cultura, com um casamento que está começando e que merece cuidado e adaptação também.

 

  • Caso ele não te acompanhasse e você estivesse disposta a voltar, isso te faria feliz? De novo: você deixaria de ter um lado incompleto (não estar realizada em vários âmbitos pessoais) para ter outro incompleto (ficar longe dele). Mas qual desses lados pesa mais nesse momento? Qual deles você não pode ficar sem?

Sua situação não é fácil mas acho que já vai ajudar bastante se você tirar a culpa dos seus ombros porque você não deixa de ser quem é quando se envolve com outra pessoa, seus valores e o que te faz feliz são imutáveis estando casada e cheia de filhos ou vivendo sozinha. Sem contar que você poderia estar há 2 anos pensando “e se eu tivesse ido para o Canadá” e viver no “e se” aprisiona. Você foi corajosa e deu uma grande prova de amor quando deixou tudo pra trás. Não há do que se culpar porque com certeza, apesar dos pesares você é grata por tudo o que tem. A grande questão, ao meu ver, é assumir que você tem outras necessidades também e está tudo bem! Tenho certeza que analisando tudo isso você vai encontrar uma saída e meus seguidores também vão te ajudar, certo galera? Comentem aí, por favor.

E você? Quer um conselho também? Escreva para [email protected] colocando no assunto #LaVidaReal. Sua identidade será preservada, você vai ter a minha ajuda (ou ao menos minha palavra amiga) e de quebra vai ajudar outras pessoas em situações parecidas. 

Fê La Salye
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Comentários
5 comentários em "Não deixamos de ser únicos quando nos tornamos um só – #LaVidaReal"
  1. Aline   04/10/18 • 09h55

    Olá!

    Não posso opinar sobre o relacionamento dessa leitora, mas o que posso sugerir é sobre a questão profissional aqui no Canadá. Se ela quiser/puder, ela poderia voltar a estudar, fazer um college (muito comum aqui para o mercado de trabalho), não sei no que ela é formada, mas seria mais fácil para ela se adaptar ao mercado de trabalho e conseguir trabalho na área dela. O Canadá está super aberto para profissionais de outros países, mas se a pessoa estudar aqui as portas se abrem muito mais, pois você teria conhecimento do mercado canadense na sua área e referências (importantíssimo na hora da contratação). Foi o que meu marido e eu fizemos e deu super certo. Canadá é um país incrível, com oportunidades para todos em todas as áreas, só precisa se adaptar um pouquinho com o mercado deles e ter um bom nível de inglês (o que acredito que a leitora já tenha). Aqui vemos pessoas de todos os lugares do mundo em todos os cargos, se você é competente na sua área não vai faltar oportunidades. Acho o Canadá um país justo e solidário. Essa é a minha opinião e espero ter ajudado, não deve ser uma decisão fácil. Desejo boa sorte para essa leitora.

    • Fê La Salye   04/10/18 • 11h34

      Aline, muito obrigada por contribuir. Tenho certeza que vai ajuda-la. Beijos!

  2. Sarah   04/10/18 • 16h27

    É impossível dizer: faça isso ou faça aquilo. Mas se eu tenho aprendido alguma coisa nos últimos anos é que por mais amor que exista, ele nunca é suficiente. Só amor não é suficiente. Então acho intereasante, sim, colocar na balança o que pode dar mais tranquilidade e saúde emocional, que é muito importante. Eu passei por uma situação parecidissíma e decidi voltar pro Brasil porque me vi, inclusive, começando a entrar em uma depressão. Escolher por mim foi essencial. Boa sorte!

    • Fê La Salye   04/10/18 • 19h28

      Exato! Amar não é suficiente. A vida me ensinou isso também. Obrigada por comentar.

  3. Erika   09/10/18 • 21h37

    Olá,
    Lendo esse depoimento me fez lembrar de uma situação muito parecida que eu passei há uns anos atrás…namoro online, ele me visitou 2x (e eu nunca o visitei nos EUA), e aquela pressão por uma tomada de decisão…A cidade que ele morava era muito pequena e de maneira alguma eu poderia exercer minha profissão. Não aceitaria ser sustentada, pois não foi essa a formação que tive da minha família. Resumindo, ele acabou me botando um “chifre online” (kkkk…nem sei se esse termo existe) com outra brasileira, que em questão de meses largou tudo e foi atrás dele. Hoje vejo que assim foi melhor, mas foi difícil aceitar…Acho que se tivesse largado tudo e ido atrás, depois de um tempo eu iria me arrepender, pois hoje vemos que não tínhamos quase nada em comum, só a paixão do momento. Foi bom ele ter “tomado a decisão por mim”. Por mais que você goste dele, e se já não há tanta sintonia, será que vale a pena morar em um país de primeiro mundo porém ser triste por ter aberto mão de tantas coisas?

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