04 set 2019

Quando você quer se amarrar mas nasceu pra ser livre

LIFESTYLE > Resignifica

Senta, pega a pipoca e leia um pouco da minha história. Talvez você se identifique.

Não tem outra forma de começar esse post que não seja pela intensidade. Eu já nasci intensa. Nasci lutando pela vida após 14 horas de trabalho de parto e numa época sem ultrassom ou minha mãe teria sido encaminhada para uma cesárea já que eu estava sentada e com o cordão umbilical enrolado em meu pescoço, o que automaticamente me fez um bebê diagnosticado: teria que conviver com a epilepsia pra sempre.

Minha infância foi marcada por crises convulsivas, conversas engraçadas ao lado do violão do meu pai, muita música e um misto de pobreza material com riqueza espiritual. Na minha casa o pão era contado mas a sobrava e era compartilhada.

Desde pequena eu me expressava através da escrita e da música. Ganhava todos os concursos de poesia e de redação da escola. Cheguei a ter um caderno com mais de 300 poesias e crônicas. Quando a voz faltava, era a escrita que fazia todo mundo ouvir o que eu queria dizer e eu sempre disse muito e do fundo da minha alma.

Cantar então… dispensa comentários! Mas como sou intensa vou ter que dizer. Aos 4 anos meu pai me ensinou a escutar a 2ª voz nas vitrolas e logo eu tinha que reproduzir o que tinha escutado. Aos 7 anos comecei a cantar sozinha e fiz aulas de canto até os 14. Eu nunca mais deixei de cantar, mesmo quando tentaram me calar. Todas as minhas melhores lembranças envolvem música e cada vez que a vida me fez sangrar foi a música que me cicatrizou.

Sempre fui de falar muito. Desconheço desde pequena o que é ter medo de se expressar, de emitir uma opinião. Nos grupos de trabalho escolar, todo mundo sabia que podia deixar a apresentação comigo porque eu ía adorar. Gosto tanto do poder da voz que até fiz locução e dublagem.

Durante toda a minha vida eu sempre fiz muitos amigos e amores. Relacionamento sempre foi o que mais priorizei na vida. Eu fui aquela criança que aos 8 anos não fez uma carta para o Papai Noel (crianças intensas gostam do lúdico mas não da ilusão) e sim pra Deus e nela eu escrevi em detalhes como seria meu marido e a minha cerimônia de casamento. Sou daquelas que sempre achou que seja amigo, namorado, marido, familiar ou conhecido; todos merecem a sua entrega por inteiro porque ninguém deveria ter a experiência de viver algo que não foi genuíno. Isso foi tão ao pé da letra que ao longo dos meus 37 anos eu já pedi um homem em casamento, eu já fiz música para um deles para declarar o meu amor, já mudei de cidade e de país para viver um romance, também congelei minha carreira por 4 anos como consequência dessa escolha e muitas outras coisas que não batem muito bem com a minha constante independência, o que aliás, assusta grande parte do universo masculino.

Talvez tenha sido a epilepsia a grande responsável por me ensinar que não importa quantas vezes você caia, sempre haverá uma forma de se levantar e talvez ela tenha me ensinado também que ser independente apesar das dificuldades, é o melhor seguro de vida que podemos contratar. E sem perceber, essa independência foi se tornando cada vez mais forte. Aos 15 anos fui morar sem meus pais em outra cidade para terminar meus estudos em um colégio distante. Aos 18 anos entrei na faculdade e já comecei a trabalhar. Aos 21 anos me casei pela primeira vez. Aos 28 anos me divorciei e aluguei um apartamento bem precário (sem elevador, sem porteiro, com uma única janela) mas era o que eu podia pagar na época sem precisar deixar de fazer a minha pós-graduação. E sim, eu poderia ter ido morar com meus pais mas pra quem saiu tão jovem de casa, é difícil se acostumar de novo a esse estilo de vida. Aos 29 anos saí do Brasil. Aos 34 retomei meus tratamentos para engravidar já que tenho infertilidade (que ironia uma pessoa que gosta tanto de família não poder gerar), aos 36 engravidei e perdi com 18 semanas e aos 37 me divorciei pela segunda vez – com muito mais traumas já que ninguém quer passar por um segundo divórcio e com 2 embriões que vão permanecer congelados. E após beijar a depressão, abraçar a crise de angústia, cultuar a insônia e o medo ao novo, lá fui eu juntar meus cacos com uma boa música e muitas doses de fé.

Renasci. Amadureci. Me empoderei. Estou feliz. E é só o começo. 

A grande aliada nisso tudo tem nome: Terapia. E vem dela o título desse post. Eis que um dia, entre me fazer ver quais são os padrões de relacionamento que repito e o que devo mudar, minha psicóloga lança a frase que quase me fez cair da cadeira. Na verdade eu caí e voltei a sentar como se aquilo não tivesse me abalado.

“Fernanda, você realmente dá a vida por uma relação, por uma família e por um sonho mas já passou pela sua cabeça que o seu espírito livre é maior que qualquer outro sonho que você tenha?”

Eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Ok, escutei muitas vezes de amigos, parentes e homens que sou independente demais, protagonista demais, intensa demais, forte demais. Era tanto demais que meus ouvidos já escutavam tudo como discurso de consolo, tipo aqueles que damos quando não estamos com vontade de assumir algo com a pessoa: fulano, você é incrível MAS o problema não é você, sou eu. 

E sim, eu sou mesmo tudo isso aí misturada a um montão de defeitos. Eu sou mesmo aquela pessoa que se não vai estar por inteiro nem começa a brincar. Eu sou sim a pessoa que sonha com tudo isso e mais um pouco. Mas nunca tinha me dado conta de que o meu poder de renascimento frente a uma dor, uma perda ou uma desgraça é muito maior e tudo isso só tem uma razão de ser: é porque AMO a minha liberdade, a vida, ser eu mesma e poder me reinventar todo dia. Eu já constatei que tudo na minha vida pode acabar mas que eu continuarei de pé enquanto ainda houver chances de ser livre, viva, autêntica e renovada.

E talvez por isso nada que me amarre dura muito tempo na minha jornada. É como se a vida olhasse para o que tenho agora e ao mesmo tempo para o que me espera no futuro e me dissesse: Ei Fê, é melhor parar por aqui porque se continuar você vai virar um pássaro na gaiola e a gente sabe que você precisa mais do que isso para ser contagiante e realizada. 

E nessas horas eu valorizo ainda mais o autoconhecimento porque ele também liberta. Não me fecho para o amor e nem digo adeus aos meus sonhos. Também não tiro do outro as suas responsabilidades (e nem escondo as minhas) que causaram o fim de uma trajetória, porém é muito mais sensato, gratificante e seguro continuar vivendo quando se sabe o que fazer com os sentimentos e com as oportunidades do caminho, quando você já sabe do que nunca vai conseguir se divorciar.

E por isso a FÊnix segue.

Fê La Salye
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